De quem afirme a nossa própria existência e nos confirme as nossas crenças
Precisamos de pares para crescermos, e precisamos deles desde sempre e para o resto da vida, convivendo com os ditos numa relação que é muito mais de desarmonia que de concórdia, num registo de hetero-aprendizagem dinâmica e em permanência que nos restringe e limita na linguagem e comportamentos, mesmo quando nos castramos e deixamos berrar instintos primários de evidente e protelada chamada de atenção.
A questão é que na conflitualidade destas relações reside a sua riqueza, e como tal, como crescer implica esforço, também o sumo bom, destas relações entre pares, implica esforço na tarefa de o bem espremer.
A certa altura estes pares anulam-se na sua condição externa, transmutam-se connosco e com aquela que é a nossa genuína essência colorindo e redesenhando padrões e acções comportamentais que a nós nos surgem primariamente em relação a estas outras que, não sendo nossas, nos transmutam a nós e aos nossos comportamentos e começam a fazer parte de nós.
Nesse momento perdem e sua heterogeneidade, em relação ao nosso mundo e às nossas pertenças e em relação a nós.
Estes pares não são amigos, nem família, nem nada, são Pares.
São espelhos multiformes, alguns fantasiosos e outros bastante mais reais e assertivos que aqueles que realmente me espelhariam a mim. São polaróides "post-its" coladas por todas as áreas neurais da minha alienada mioleira, que me completam, reparam, defendem, estimulam e incitam, que me completam mesmo sem me pertencerem.
Pensei nesta relação compulsiva convosco pares, hoje pensei em como "vocês" representam parte do que sou.
Importam para mim, fazem parte da minha vida e com eles convivo de forma directa e indirecta e importam, porque percebo de que forma me completam e me transformam sem alterar a natureza verdadeira daquilo que eu sou.
Hoje, quando percebi que o dia estava mais curto senti no horizonte as cores pastel de um Outono charmoso e discreto, e quando inspirava o aroma fresco e profundo daquela neblina azul, roxa e rosa fui acordada pela evidência e presença dos pares na minha vida.
Mas hoje, senti com este par o mesmo perfume e as mesmas incandescências pastel, e percebi na realidade desta cumplicidade a evidência das também partilhadas similaridades de tendências, sensibilidades, previsibilidade de resposta entre pares.
Tocámos com as pontas dos dedos bem esticadas, e nesse ponto de união criou-se um espaço de entendimento e de liberdade da sensação e do toque diário do mundo em nós, e sentimo-nos acompanhadas na loucura de perder 5 minutos a perceber as mudanças de cor e sabor do céu, e voar, voar dali e esquecer que o candeeiro tem uma terrível luz amarela e que o final da tarde não sinonimiza final de trabalho.
Amanhã, na pior das hipóteses, o tempo se encarregará de me trazer a mim, e aos pares que me integram e compõem e rodeiam, um céu que nos dá asas e aromas e sabores e experiências, e cumplicidades poéticas existencialistas de final de tarde,de dia e de mês.
Hoje ficou de noite mais cedo; mas o mundo para me compensar deu-me um final de tarde maravilhoso e uma experiência de cumplicidade entre pares de valor inestimável.
Mais um conhecimento percebido; precisamos de pares, de quem afirme a nossa própria existência e nos confirme as nossas crenças.
Beijos Queijos e Sorrisos
Daqui e de Acolá
