26 de Outubro de 2009

Precisamos de um Par

De quem afirme a nossa própria existência e nos confirme as nossas crenças


Precisamos de pares para crescermos, e precisamos deles desde sempre e para o resto da vida, convivendo com os ditos numa relação que é muito mais de desarmonia que de concórdia, num registo de hetero-aprendizagem dinâmica e em permanência que nos restringe e limita na linguagem e comportamentos, mesmo quando nos castramos e deixamos berrar instintos primários de evidente e protelada chamada de atenção.

A questão é que na conflitualidade destas relações reside a sua riqueza, e como tal, como crescer implica esforço, também o sumo bom, destas relações entre pares, implica esforço na tarefa de o bem espremer.

A certa altura estes pares anulam-se na sua condição externa, transmutam-se connosco e com aquela que é a nossa genuína essência colorindo e redesenhando padrões e acções comportamentais que a nós nos surgem primariamente em relação a estas outras que, não sendo nossas, nos transmutam a nós e aos nossos comportamentos e começam a fazer parte de nós.
Nesse momento perdem e sua heterogeneidade, em relação ao nosso mundo e às nossas pertenças e em relação a nós.

Estes pares não são amigos, nem família, nem nada, são Pares.

São espelhos multiformes, alguns fantasiosos e outros bastante mais reais e assertivos que aqueles que realmente me espelhariam a mim. São polaróides "post-its" coladas por todas as áreas neurais da minha alienada mioleira, que me completam, reparam, defendem, estimulam e incitam, que me completam mesmo sem me pertencerem.

Pensei nesta relação compulsiva convosco pares, hoje pensei em como "vocês" representam parte do que sou.
Importam para mim, fazem parte da minha vida e com eles convivo de forma directa e indirecta e  importam, porque percebo de que forma me completam e me transformam sem alterar a natureza verdadeira daquilo que eu sou.

Hoje, quando percebi que o dia estava mais curto senti no horizonte as cores pastel de um Outono charmoso e discreto, e quando inspirava o aroma fresco e profundo daquela neblina azul, roxa e rosa fui acordada pela evidência e presença dos pares na minha vida.
Mas hoje, senti com este par o mesmo perfume e as mesmas incandescências pastel, e percebi na realidade desta cumplicidade a evidência das também partilhadas similaridades de tendências, sensibilidades, previsibilidade de resposta entre pares.

Tocámos com as pontas dos dedos bem esticadas, e nesse ponto de união criou-se um espaço de entendimento e de liberdade da sensação e do toque diário do mundo em nós, e sentimo-nos acompanhadas na loucura de perder 5 minutos a perceber as mudanças de cor e sabor do céu, e voar, voar dali e esquecer que o candeeiro tem uma terrível luz amarela e que o final da tarde não sinonimiza final de trabalho.

Amanhã, na pior das hipóteses, o tempo se encarregará de me trazer a mim, e aos pares que me integram e compõem e rodeiam, um céu que nos dá asas e aromas e sabores e experiências, e cumplicidades poéticas existencialistas de final de tarde,de dia e de mês.

Hoje ficou de noite mais cedo; mas o mundo para me compensar deu-me um final de tarde maravilhoso e uma experiência de cumplicidade entre pares de valor inestimável.
Mais um conhecimento percebido; precisamos de pares, de quem afirme a nossa própria existência e nos confirme as nossas crenças.

Beijos Queijos e Sorrisos
Daqui e de Acolá

19 de Outubro de 2009

Procurei no tempo a resposta

Quando a Prof Graciete, provavelmente num Setembro ou Outubro de 1986, me perguntou aquilo que pretendia fazer quando fosse grande, de alguma forma a minha sabedoria de 6 anos me sussurrou baixinho ao ouvido que a resposta suscitaria "polémica".
Nunca quis ser nada de excêntrico ou arriscado, nunca sonhei ser bailaria nem médica, professora sim, mas o que eu queria mesmo era ser escritora.

De quê? Bem isso não sabia.
Sabia que gostava das letras e de as ver juntas e de as pronunciar, de falar, de contar ideias e sonhos e disparates sobre os quais, às vezes me debruçava larguíssimas horas, enquanto fingia que brincava com as barriguitas cabeludos.
Escrever é estranho, para mim sempre foi, como um destino traçado e escrito algures nas estrelas que me persegue e se umas vezes me incomoda outras, acompanha-me e solidariza-se comigo, como nenhum outro amigo, familiar ou confidente.
E agora que andei numa fase de "escuta", ambivalente e totalmente tolerante, encontrei novamente esta vontade de me encontrar nas minhas palavras que quando aparecem no ecrã enorme e antiquado do monitor aqui de casa, parecem escritas para mim mas não por mim.
Hoje, quando penso em como podemos ser são sapientes com 6 anos, penso em como nos perdemos tanto da vida com preconceitos estereotipados, mesmo sobre aquilo que queremos para nós, para a nossa vida.
A ideia de escrever aparecia e aparece para mim, como um depósito de considerações sobre a quantidade disparatada de acontecimentos e vivências que vamos adquirindo ao longo da vida e que precisamos, ou eu preciso, partilhar.
Não as "coisas", mas o impacto das coisas em mim, na organização fisiológica que vai sofrendo a minha massa encefálica, a forma como agora se organizam as minhas memórias, como é distinto o processo de análise e escolha de variáveis mundanas mas perfeitamente analisáveis laboratorialmente.
Sim, falo dessa coisa magnânima que é crescer. Até parece um disparate, mas para mim é das mais inqualificáveis experiências da minha vida.
Faço por senti-la, analisá-la, e perceber ou tentar perceber as diferentes etapas.
Ultimamente a escrita aparece diferente, em forma de copywritter explora capacidades e limita intimismos ou criticismos mas permite criatividade e liberdade de espírito e liberta-me de facto, ajuda-me a pensar libertando as considerações e informação que recolho ininterruptamente e de cada vez mais fontes.
Permite-me viajar para mundos diferentes do meu, e experimentar a nossa cultura e tradição, ou a contemporaneidade de novos hábitos e costumes voando fantasiosamente sobre eles, absorvendo conhecimentos e novas temáticas, adquirindo a experiência mundana de quem vive com os pés na terra não porque não tenha medo de sujar os pés, mas porque da terra e de cada terra em especial, vem a energia de cada instante, de cada lugar.
Ter preconceito do preconceito, deixar chegar cada diferente mundo ao meu mundo, tem sido uma das mais inteligentes escolhas que tenho feito nos últimos tempos, isso e o facto de ter perdido o medo da escrita, desta e de outras.
Já percebi que a ousadia é uma sapiente defesa, a cobardia a maior das parvoíces, e agora escrevo e quase nem ligo, não porque não goste mas porque existe sempre um ou outro elemento castrador que me limita a expressão das genuínas palavras e me defende.
Este é o meu canto das palavras, onde instalo metaforicamente o meu cadeirão e me deixo levar, sem castrações nem amarras, nem limitações legais ou éticas ou políticas ou... Nada, sem nada que me condicione ou faça calar ou mesmo, falar sem verdade, sem sentimento.
Este é o canto do meu Muro Ocidental onde deposito as minhas "lamentações", o confessionário onde penitencio as minhas confissões, o tribunal que julga os meus actos ou o resultado dos actos dos outros em mim, o meu canto, só assim!
Sinto por isso que encerro o ciclo de silêncio, de omissão por interesse na exploração de novas posturas, da aquisição dos resultados da experiência e do apurar de objectivos.
Preciso de voltar aqui, onde o volume da expressão das palavras sou eu quem controla, onde me lanço a este desafio constante daquilo que me quero dizer mas onde, apesar de tudo, sei que não estou só e quando acabo sinto que adormeci, e que aconchegam uma coberta e fecham a luz.
-"Descansa... Amanhã haverá mais"sussurram-me as letras que aparecem no ecrã e que escrevem mas não dizem, Post Publicado!
E eu sossego, escrevi, assumi comigo o compromisso de já o ter dito e compreendo a responsabilidade de o ter feito, não a carrego mas trago-a sempre comigo, levo-a a qualquer parte e por isso, percebi agora, tenho este enorme fascínio por enormes malas com as quais normalmente me faço acompanhar.
A vida tem demasiadas coisas para nos dar, não quero desperdiçar nenhuma por falta de espaço!

Beijos Quejos e Sorrisos;
Daqui e de Acolá